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Jet Set Radio

Retro+

Jet Set Radio

Dreamcast · 2000

Zema

Escrito por

Zema — Video & Social Media Producer · 21 de Setembro 2026

Ainda vale a pena jogar isto hoje?

Sim, continua a valer.

Jet set radio


Introdução


Quando comprei a Dreamcast, esta trazia este jogo, Jet Set Radio, já o conhecia de o ver em revistas, mas não fazia ideia de como era o gameplay. Trouxe-o para casa, pois vinha incluído com a consola, e que sortudo eu fui. Ter acordado cedo e viajado de autocarro junto de uma velhota com uma galinha ao colo valeu bem a pena.


O jogo saiu originalmente a 29 de junho de 2000 no Japão, para a Dreamcast, desenvolvido pela Smilebit e publicado pela Sega. A Smilebit era, na altura, uma equipa recente, formada por antigos membros da Team Andromeda, os responsáveis pelos jogos Panzer Dragoon na Sega Saturn. Era uma equipa pequena, com menos de 25 pessoas, a maioria com menos de 25 anos de idade, o que ajuda a explicar a energia que o jogo transpira. Nos Estados Unidos chegou meses depois, em outubro de 2000, com um nome diferente: Jet Grind Radio, por causa de um conflito de marca registada com o nome "Jet Set Radio", já usado por uma gravadora. Na Europa manteve o nome original.


Enquanto a indústria perseguia gráficos cada vez mais "realistas", a Smilebit optou por um visual cel-shaded, com contornos grossos e cores garridas, como se estivéssemos dentro de uma banda desenhada japonesa, sendo um dos primeiros jogos a utilizar a técnica de cel-shading. Só se tinha visto algo semelhante em Fear Effect, meses antes, mas apenas nos modelos de personagens, nunca aplicado a um mundo inteiro da forma como Jet Set Radio o fez.


À frente do projeto estava o diretor Masayoshi Kikuchi, com a direção artística de Ryuta Ueda, o responsável por moldar aquele visual tão característico. Reza a história que tudo começou quando Ueda mostrou a Kikuchi uns desenhos de personagens com aquele estilo, e a resposta terá sido qualquer coisa como "vamos faze-lo". A partir daí nasceu a estética Manga, embora nos primeiros tempos de desenvolvimento a equipa nem sequer tivesse ainda as ferramentas técnicas para conseguir o efeito de contorno das personagens, algo que só foi resolvido a meio da produção.


A banda sonora, com Hideki Naganuma como compositor principal, é lendária, misturando funk, hip-hop, breakbeat e eletrónica de uma forma que ainda hoje parece inovadora. Naganuma chegou mesmo a dizer, anos mais tarde, que Jet Set Radio e a sua sequela foram os projetos de que mais gostou em toda a carreira. A Sega trabalhou também com as suas divisões americana e europeia para tentar tornar a música o mais universal possível, incluindo referências de cultura urbana ocidental. Uma das músicas chama-se "Super Brothers" e é uma referência ao Mario e ao Luigi, da Nintendo.

Em Jet Set Radio controlamos um membro dos GGs, um grupo de jovens patinadores que passam o tempo a pintar grafitis pela cidade fictícia de Tokyo-to, a marcar território contra gangs rivais e a fugir de uma polícia cada vez mais empenhada em apanhá-los. É um jogo cheio de estilo, influenciado tanto pela cultura japonesa de finais dos anos 90 como pela estética hip-hop e de grafiti norte-americana dos anos 80.


A nível de jogabilidade, o conceito também era invulgar para a época: patinamos pela cidade, fazemos grinds em corrimãos e rampas, e pintamos superfícies através de um sistema simples de agitar o comando (ou, mais tarde, o analógico) para simular o spray. Não era um jogo particularmente difícil, mas a sensação de liberdade de movimento pela cidade era algo que praticamente mais ninguém oferecia na altura, e que só se tornaria mais comum anos depois, com o boom dos jogos de mundo aberto. Fazer os grafitis a seguir os movimentos com o analógico era algo especial, parecia mesmo que estávamos a fazer as linhas dos desenhos, muito divertido.


Onde o jogo mostra mais a idade é na câmara, muitas vezes apontada como o seu maior calcanhar de Aquiles: como a Dreamcast não tinha um segundo analógico, tinha de ser usado o gatilho esquerdo para a centrar atrás da personagem, e, para agravar isso, esse era também o botão de começar os grafitis. Isto levava a saltos bruscos na câmara, especialmente irritante nas partidas contra os bosses dos gangues rivais. Ainda assim, a jogabilidade principal, a de patinar, saltar e explorar os mapas ao som daquela banda sonora, continua extremamente satisfatória mesmo hoje, mais de duas décadas e meia depois.


Comercialmente, Jet Set Radio não foi propriamente um sucesso estrondoso, até porque chegou numa altura em que a Dreamcast já lutava pela sobrevivência no mercado, acabando por ser descontinuada pouco depois. No entanto, a crítica adorou-o, e o boca-a-boca transformou-o, ao longo dos anos, num clássico de culto. Tanto assim é que a Sega voltou a relançar o jogo no Japão, em 2001, sob o nome De La Jet Set Radio, incorporando as faixas musicais adicionais criadas para as versões ocidentais. Já em 2002, saiu para Xbox aquilo que é tecnicamente uma sequela, mas que funciona quase como uma reinterpretação do original: Jet Set Radio Future, com o mesmo espírito do anterior.



Porque ainda vale a pena

  • Direção artística absolutamente única
  • Envelheceu visualmente muito bem
  • Banda sonora
  • Gameplay original
  • Cultura urbana bem integrada
  • Influência

Onde já envelheceu

  • Câmara
  • Combates/bosses
  • Algumas mecânicas são bastante datadas
  • Escala limitada dos mapas

Veredicto

Hoje, Jet Set Radio é reconhecido como um dos primeiros jogos a abraçar totalmente o cel-shading, uma técnica que viria a influenciar títulos como The Legend of Zelda: The Wind Waker (2002) e, mais recentemente, jogos como Persona, Hi-Fi Rush, Sunset Overdrive ou o sucessor espiritual mais direto de todos, Bomb Rush Cyberfunk (2023), feito pela Team Reptile com música do próprio Naganuma. É raro um jogo com uma performance comercial tão modesta ter um impacto tão desproporcional na indústria décadas mais tarde.

Mais de duas décadas depois, Jet Set Radio continua a ser lembrado não só pela sua jogabilidade, mas também pela sua estética: uma cápsula do tempo perfeita do início dos anos 2000 e que continua a inspirar moda, música e outros jogos. E se ainda precisavas de mais provas do seu impacto, a Sega já confirmou, oficialmente, um novo jogo da série para uma nova geração. Mal posso esperar pelo trailer.